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GRAVE DENÚNCIA: ninguém aguenta mais textão sobre eleição — e eu vim escrever um

há 20 horas
6 min de leitura

Porque virar votos importa, mas construir uma rede capaz de enfrentar o que vem depois também.


Depois do primeiro turno, nos vimos diante de uma realidade difícil de ignorar: a extrema direita avançou de forma expressiva nas urnas e conquistou um espaço enorme no Congresso Nacional.


Flávio B0l$0nar0 terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, 47,03% dos votos válidos, contra 53,9 milhões de Lula. Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados — a maior bancada de um partido desde a redemocratização — e conquistou 19 das 54 cadeiras disputadas no Senado.


Mas talvez o mais assustador não esteja apenas nos números.


Assistimos candidatas da extrema direita que foram eleitas utilizando discursos de ódio contra pessoas LGBTQIAPN+, atacando políticas públicas voltadas à população de baixa renda e naturalizando relações de trabalho marcadas pela exploração. Elas estão ocupando espaços de poder enquanto reproduzem discursos que atacam os direitos conquistados por tantas outras mulheres antes delas. Chegam a questionar o próprio direito de outras mulheres ao voto — um direito conquistado no Brasil depois de décadas de luta.


Reprodução do site da ANF - Agencia de Notícias da favela
Reprodução do site da ANF - Agencia de Notícias da favela

E precisamos encarar uma coisa difícil: não podemos mais explicar tudo isso apenas pela desinformação. Ela existe, é poderosa e precisa ser combatida. Mas existe também uma parcela da sociedade que se reconhece nessas falas, sabe quem será atingido por elas e, ainda assim, escolhe apoiá-las. Para algumas pessoas, derrotar Lula, a esquerda ou aquilo que identificam como “inimigo” parece ser mais importante do que defender direitos básicos, democracia e a própria possibilidade de existência de quem está ao seu lado.


Isso precisa nos fazer pensar para além das eleições.


Porque a extrema direita não se construiu apenas nas urnas. Ela se construiu nas redes, nas igrejas, nos bairros, nas escolas, nas famílias, nos espaços de convivência e também na cultura. Ocupou territórios, criando comunidades, produzindo linguagem, disputando imaginários e transformou ressentimentos em identidade política.


E é justamente por isso que nós, coletivos, artistas, produtoras, bandas, casas de show, jornalistas, comunicadoras, educadoras, movimentos sociais e organizações da sociedade civil, precisamos parar de atuar como ilhas.


A cena não é um espaço neutro. Aquilo que produzimos, os lugares que criamos e as pessoas que escolhemos colocar no centro também são formas de disputar o mundo.


Reprodução da internet - Evento BANIGHT #2 na Motim
Reprodução da internet - Evento BANIGHT #2 na Motim

Precisamos continuar construindo redes de apoio, de informação, de circulação, de formação política & de proteção. Aproximar coletivos que muitas vezes trabalham com as mesmas pautas, mas não conversam entre si (ainda). Compartilhar contatos, equipamentos, espaços, conhecimentos, oportunidades, público e estratégias.


Precisamos também aprender a agir antes que a violência aconteça — e não somente depois.


Os números da violência política mostram que o problema já está entre nós. De acordo com a Agencia Brasil, entre janeiro e agosto de 2026, o Ligue 180 registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres. Mais de 53% das vítimas eram mulheres negras. Entre as violações aparecem ameaças, difamação, misoginia, racismo, transfobia, intimidação e tentativas de deslegitimar mulheres em espaços de poder (Mas olha que coincidência ne? Pois parece que a gente já viu isso acontecendo na cena musical também).


Print da página principal da Agência Brasil sobre denúncias de violência política contra mulher
Print da página principal da Agência Brasil sobre denúncias de violência política contra mulher

E quando uma mulher, uma pessoa trans, uma pessoa negra, uma pessoa LGBTQIAPN+ ou qualquer outro grupo historicamente violentado deixa de ocupar um espaço porque sabe que estará sozinha, isso também é uma derrota política.


Por isso, talvez uma das tarefas mais urgentes deste momento seja construir comunidade.

Não uma comunidade baseada em concordarmos em absolutamente tudo. Mas uma comunidade capaz de reconhecer que temos inimigos comuns, que nossas lutas se atravessam e que ninguém vai conseguir enfrentar sozinho o avanço de um projeto político que aposta justamente na nossa fragmentação.


Não precisamos esperar a próxima eleição para começar.


Fortalecendo práticas que já estão aí: aproximando coletivos, criando espaços de conversa, amplificando o trabalho de artistas e iniciativas independentes, compartilhando informação confiável, acolhendo quem está sendo atacado e construindo estratégias conjuntas para disputar a cultura e o imaginário.


A extrema direita aprendeu a se organizar. Nós precisamos ir além e reinventar tudo o que já fazemos.


E talvez a nossa maior força esteja justamente naquilo que eles tentam destruir: a capacidade de criar vínculos, cuidar umas das outras, imaginar outros futuros e construir um mundo onde ninguém precise abrir mão da própria existência para caber na sociedade.


É hora de tecer nossas redes.


E onde entra a arte e os coletivos nisso tudo?

Entra justamente onde a disputa política também acontece: no imaginário, na cultura, nos afetos e na maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras.


A arte não vai, sozinha, derrotar a extrema direita. Um show não substitui organização política, uma música não substitui políticas públicas e uma roda de conversa não resolve décadas de desigualdade.


Mas a arte cria uma coisa fundamental: possibilidade de encontro. E encontro é política.

Quando uma banda independente ocupa um palco e coloca mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIAPN+ e artistas periféricos no centro, ela está dizendo que essas pessoas pertencem àquele espaço.


Quando um coletivo cria uma roda de conversa, compartilha conhecimento e aproxima pessoas que nunca teriam se encontrado, está criando rede. (Inclusive, conheçam o coletivo TRANSGAZE AQUI)


Reprodução da internet - roda de conversa sobre consentimento.
Reprodução da internet - roda de conversa sobre consentimento.

Quando uma produtora escolhe contratar, divulgar e fortalecer artistas que historicamente tiveram suas vozes apagadas, está redistribuindo espaço, dinheiro e visibilidade.


Quando uma casa de show estabelece que não compactua com racismo, machismo, LGBTfobia ou qualquer outra forma de violência, está criando um território político.

É disso que estamos falando.


Nós, que atuamos na cena independente, muitas vezes fazemos política sem chamar aquilo de política. Fazemos quando organizamos um evento com pouco dinheiro, quando dividimos equipamento, quando hospedamos uma banda que vem de outra cidade, quando ensinamos alguém a produzir seu primeiro show, quando abrimos espaço para uma artista que nunca teve oportunidade, quando fazemos circular informação e quando construímos público para além da lógica do mercado.


Existe uma enorme potência política nessas pequenas estruturas que construímos todos os dias.


Mas talvez a gente precise começar a enxergá-las também como infraestrutura de resistência.

Porque um coletivo artístico não é apenas um grupo de pessoas fazendo eventos.

Pode ser uma rede de proteção, espaço de formação, ferramenta de comunicação, lugar de pertencimento.


Pode ser porta de entrada para novas pessoas na política e na organização coletiva.


Precisamos nos unir, apesar de nossas diferenças. É assim que uma cena se fortalece.


E talvez seja justamente isso que precisamos fazer agora: transformar a fragmentação em rede. Sem esquecer de combater estruturas de opressão dentro dos nossos próprios espaços (aqui vocês ja sabem do que estamos falando - apenas parem).


Se queremos construir uma cena mais forte e mais preparada para enfrentar o que vem pela frente, precisamos também criar relações mais justas entre nós.


E talvez exista mais uma coisa que a gente precise recuperar: o otimismo.

Não aquele otimismo ingênuo de fingir que está tudo bem. Não está. O resultado das urnas nos assusta, a violência política existe e o avanço de discursos autoritários é uma realidade que precisamos enfrentar.


Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer a gravidade do momento e acreditar que não há nada que possamos fazer.


O derrotismo também pode nos paralisar. Quando começamos a acreditar que “não adianta”, que “já está tudo perdido” ou que “não tem mais jeito”, deixamos de enxergar as possibilidades de ação que ainda existem. E uma sociedade que acredita que não pode mudar nada é uma sociedade muito mais fácil de controlar.


A esperança, nesse sentido, não é ingenuidade. É uma ferramenta de organização.


Acreditar que podemos construir alguma coisa diferente é o que nos permite imaginar, criar estratégias e agir. Por isso, não vamos terminar esse texto falando em medo. Queremos falar em possibilidade.


Porque a gente já construiu muita coisa com quase nenhum recurso. Já criou cena onde diziam que não existia cena. Já ocupou espaços que não foram pensados para nós. Já fez show, coletivo, festival, zine, roda de conversa, rede de apoio e projeto independente nascerem do nada.


A gente sabe fazer isso.


Pink Punk Party - Undergirls - Reprodução do Instagram: Foto MavMatheus Ago/2026
Pink Punk Party - Undergirls - Reprodução do Instagram: Foto MavMatheus Ago/2026

Talvez o que esteja faltando agora seja perceber que essa capacidade de construir também é uma forma de poder.


Então sim: precisamos virar votos. Precisamos conversar com quem ainda pode ser convencido. Precisamos enfrentar a desinformação, disputar narrativas e defender a democracia.


Mas também precisamos olhar para além da urna e construir as redes que vão continuar existindo depois dela. Não porque temos certeza de que vamos vencer. Mas porque acreditar que podemos mudar alguma coisa é justamente o que nos dá condições de tentar.


E, sinceramente? Recusamos entregar o futuro antes da hora.



Lety Lopes

 
 
 

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