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Esse grupinho não é pra gente

há 11 minutos
4 min de leitura

Entre a promessa de comunidade e a prática da exclusão, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ ainda enfrentam silenciamento e violências para ocupar espaços de protagonismo na cena independente carioca.


Não é novidade que existe um processo de silenciamento e apagamento de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ no cenário artístico. Mas, quando fazemos um recorte da cena underground e independente, esse processo parece ganhar contornos ainda mais violentos.

Somos atravessadas por assédios, violências, constrangimentos e apagamentos. E, quando ousamos cobrar, somos questionadas, difamadas & isoladas.


Enquanto isso, os caras se falam. Os caras se protegem. Os caras se fortalecem.

Existe uma rede de brotheragem que funciona muito bem quando é para proteger os seus. Eles se conhecem, se indicam, dividem palcos, projetos, contatos e oportunidades. Quando um deles vacila, existe uma disposição para conversar, acolher, relativizar e, muitas vezes, simplesmente seguir em frente. Mas esse jogo não foi feito para nós.


Efusiva Apresenta: Tuíra / Anticorpos / Bloody Mary Una Chica Band - 15/03/2019 - Planet Music - Cascadura - Registro por: Vita Parente
Efusiva Apresenta: Tuíra / Anticorpos / Bloody Mary Una Chica Band - 15/03/2019 - Planet Music - Cascadura - Registro por: Vita Parente

Então, gata, mulher, pessoa trans, pessoa preta, periférica, mãe, pessoa que cuida de crianças, que trabalha, que pega transporte público, que chega em casa depois de um dia inteiro de trabalho e ainda precisa encontrar energia para fazer sua banda e/ou projeto existir: esse rolé não foi pensado para você! E talvez seja justamente por isso que precisamos parar de tentar provar que merecemos estar na rodinha deles.


Porque eles perceberam uma coisa que nós ainda estamos tentando elaborar: a fragilidade de algumas das nossas próprias conexões. Enquanto somos incapazes de conversar entre nós, de resolver nossas questões, de reconhecer nossos conflitos e nossas diferenças sem transformar imediatamente uma companheira em inimiga, continuamos alimentando uma estrutura que não precisa sequer nos expulsar. Às vezes, fazemos esse trabalho por ela.


Efusiva Apresenta: Tuíra / Anticorpos / Bloody Mary Una Chica Band - 15/03/2019 - Planet Music - Cascadura - Registro por: Vita Parente
Efusiva Apresenta: Tuíra / Anticorpos / Bloody Mary Una Chica Band - 15/03/2019 - Planet Music - Cascadura - Registro por: Vita Parente

Ao correr para os caras em busca de validação para uma questão nossa, por exemplo, não podemos esperar que eles tenham conosco a mesma disposição de acolhimento e compreensão que oferecem uns aos outros. A lógica da brotheragem não foi construída para nos incluir. E talvez nunca seja. No máximo, nos permitem ocupar as beiradas.


A produção.

A venda de merch.

A comida.

A bilheteria.

A divulgação.


Aquela função invisível de fazer tudo acontecer enquanto eles estão no palco.

Ou, pior, a função de cuidado eterno: como babás, cuidadoras, como uma extensão de suas mães. Como quem segura seus casacos sujos e suados enquanto eles passam horas se divertindo nas rodas, com uma intimidade & cumplicidade que raramente se estende às mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ que estão ao redor.


Efusiva Apresenta: Pata / Tuíra / Unicórnio Maravilha - 20/06/2019 - Casa de cultura Sylvio Monteiro - Registro por: Lety Lopes
Efusiva Apresenta: Pata / Tuíra / Unicórnio Maravilha - 20/06/2019 - Casa de cultura Sylvio Monteiro - Registro por: Lety Lopes

E quando uma de nós começa a prosperar, a coisa muda.

Quando uma banda formada por mulheres e/ou LGBETs começa a circular mais, conquistar espaço e a construir sua própria rede. Quando deixamos de ocupar a função de apoio e passamos a ter protagonismo, ou a gente entra no jogo deles na posição de eterna tutela & submissão intelectual ou recebe o que eles mais sabem fazer: Exclusão.

Não precisamos mais ser banda de abertura, produtoras, apoiadoras ou permanecer em espaços que exigem de nós o silêncio diante das violências cometidas contra outras mulheres e LGBETeres em troca de atenção e chancela. Também não precisamos aceitar o lugar que nos foi historicamente destinado: o trabalho que quase nunca aparece no cartaz, no crédito ou na foto do palco.


Até quando vamos organizar, produzir, divulgar, vender, cuidar, lembrar de pagar as contas, cozinhar, resolver, criar filhos, acolher e segurar as pontas para que a cena continue funcionando? Um trabalho que é tratado como ajuda ou favor, quando, na verdade, sustenta boa parte do que acontece. E enquanto esse trabalho permanece invisível, os homens seguem se beneficiando dele e ocupando um lugar que também é nosso mas que num geral, não conseguimos usufruir porque estamos cansadas ou ocupadas demais, ou “tretadas” demais.


E enquanto seguimos cansadas, ocupadas e “tretadas”, eles podem chegar para tocar, circular, compor, beber, fazer contatos porque existe alguém garantindo que todo o resto aconteça. O problema não é uma mulher querer produzir, cuidar ou estar nos bastidores, o problema é quando esse lugar se torna o único espaço que nos é permitido ocupar.


Enquanto o protagonismo, o reconhecimento e as oportunidades continuam concentrados nas mãos deles. E é justamente aí que precisamos prestar atenção, porque talvez o nosso maior desafio não seja entrar nessa rodinha, mas seja entender que NÃO PRECISAMOS DELA.


Efusiva Apresenta: HAYZ / Trash No Star / Judy and the outsiders - 04/05/2019 - Smoke lounge/Tijuca - Registro por: Vita Parente
Efusiva Apresenta: HAYZ / Trash No Star / Judy and the outsiders - 04/05/2019 - Smoke lounge/Tijuca - Registro por: Vita Parente

Isso não significa criar uma nova versão da mesma lógica de exclusão. Não significa fechar os olhos quando uma das nossas pisa na bola, vacila, reproduz uma violência ou machuca alguém. Não é sobre passar pano. É sobre não transformar automaticamente quem está no mesmo barco que o nosso em vilã, é sobre conseguir conversar, construir espaços onde conflito não seja sinônimo de cancelamento, expulsão ou disputa por quem tem razão. É sobre entender que mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ não precisam concordar em tudo para construir alianças.


E talvez, principalmente, seja sobre resgatar nossa força coletiva. Porque aquela que hoje ainda está ali, buscando a aprovação dos caras, tentando ser aceita por eles, fazendo concessões para permanecer na rodinha, pode ser justamente a mesma pessoa que amanhã vai precisar de acolhimento. E se, quando isso acontecer, ela encontrar apenas outra porta fechada, teremos reproduzido exatamente a lógica que dizemos combater.


A cena independente & underground gosta de falar sobre resistência, sobre comunidade, o famoso “DIY”, e fazer pelas próprias mãos aquilo que ninguém faria por nós, então talvez seja hora de levar isso a sério.


Fazer pelas nossas próprias mãos também significa construir nossas próprias redes de proteção, nossas próprias alianças, nossos próprios palcos e nossas próprias formas de existir. Não para criar uma nova panelinha, mas para que ninguém precise pedir licença para entrar. Porque esse grupinho pode até não ser para a gente, MAS A CENA É.

 
 
 

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